- “Balões internos”? – rebate ela, pausadamente, sentindo um estranhamento-familiar naquelas palavras. Por instantes, imaginou que tal analogia devia-se ao fato daquelas luzes colorirem o ambiente como balões de aniversário! Bem propício, aliás, às comemorações que se seguiam.
- Eu disse: balões e velas! – enfatizou a autora da citação.
- Ah... – ambas voltaram a rir do equivoco.
Será que esta mensagem teria sido um mero fruto do seu inconsciente? Divagou internamente por alguns segundos, enquanto a outra menina recuperava-se dos risos.
Ao observar a cena, como um europeu do século XVI diante dos “selvagens” do novo mundo, o cão - que até então estava calado e imperceptível - apenas mudou de posição e suspirou alto, com ar de superioridade, como se dissesse: Primitivos!

- Tu viu só, ele faz que não ouve...
- Tri esperto!
- Malandro... se faz de louco!
- Mas tu aposta quanto que se eu disser “vamos passear”, ele ouve? Pra isso ele não é “surdo”...
- É... ele só “ouve” quando lhe convém...
- Beethoven!
- Exatamente o que eu pensei! Tá se fazendo de Beethoven pra nós!!
- Só que ele não é um nem outro!
- Ele não é nem o Compositor, nem o São Bernardo... coitadinho! – esclarece.
- Ah... – decodificou a mensagem.
- Só na próxima encarnação pra vir São Bernardo! – completa.
- Mas eu prefiro ele assim... “Meu Tapetinho”! – exclama para o cão, que continua ignorando-as.
- Ele é o nosso sentinela!
O cão, ainda de perfil, sequer esboça alguma reação. E em seguida deita-se encostado no marco da porta. Permanecendo sem “ouvir” aos chamados de suas donas, que recentemente tinham assistido ao filme “Minha Amada Imortal”.
(...)
- Nossa... pelo visto ele era uma espécie de Michael Jackson da época! – cena: o enterro de Beethoven.
- Vou ter que cortar o pêlo dele um pouco... tadinho! Não quero que ele se pareça com uma pomba... ui!
- Pobre do nosso cãozinho, tá que é um arbusto!
- Tu ta feio, né Veio... – diz ela com ternura, enquanto acaricia o cão, que começa a abanar o rabo.
- Tadinho! – completa – eu chamo de feio e ele balança o rabo!
- É... acho que no fundo ele sabe que é feio... e pelo visto não se importa com isso...
- O que importa é que ele se sente amado!
As duas ficam por alguns instantes olhando para o cão com admiração.
- Ele é tão feio que chega a ser bonito!
- Ele é o nosso gremilin!
- Uma mistura do Guizmo com aquele outro...

- Não é tu, querido!
- Tu vê só... – acrescenta a outra menina, ao reparar na posição do cão – ele parece um gato! Dá até pra confundir... eheh
- Ele é a coisa mais querida... meu Tapete Móvel!

Sempre que o cachorro-etê, vizinho e arquiinimigo do cão, ia levar sua “dona” pra passear, o cãozinho de pelúcia “boca-de-jacaré” alterava-se e acompanhava, de dentro de casa, toda a travessia de seu desafeto pela área do condomínio. Muitas vezes isso não bastava, sentia necessidade de sair pra desafiar seu rival. Vontade essa que as duas meninas não saciavam, apenas consolavam dizendo: “Não dá bola pra ele, Véio!”
Sabe-se que tamanha rivalidade entre as pantufas teve início nos “primórdios dos tempos”. Quando nosso protagonista era apenas um filhotinho indefeso descobrindo o mundo, o malvado cão-alienígena já era adulto e, valendo-se disso, praticava atos violentos contra ele. O suficiente para iniciar uma relação de ódio mútuo e fazer brotar um desejo fervoroso de vingança por parte do cãozinho injustiçado. [nota de rodapé: a noção de tempo aqui estabelecida está de acordo com a percepção canina]
O cachorro-etê, todavia, não recebera este apelido por acaso. Feio de doer e causar espanto até a mais incrédula das criaturas, de fato parecia um etezinho envolto em um pelego – como um disfarce mal sucedido. Estaria ele numa missão alienígena, misturado entre nós para nos estudar? Por vezes, as duas meninas questionavam-se quanto à autenticidade do cão da vizinha: bizarro!
Cruel, pode-se até ousar uma comparação diretamente proporcional entre o cão-extraterrestre e os malévolos alienígenas de “A Guerra dos Mundos”. Sempre carrancudo, tinha um olhar de serrial-killer, como se planejasse o extermínio da civilização dita humana. Por motivos óbvios, o único terráqueo que ele tratava bem era a sua “dona”. Afinal, sem saber, ela ajudava a corroborar seu disfarce.
Sim! “Eles” estão entre nós, disfarçados...

Cena 1: Em Tempo de Paz....
Uma das meninas lanchava na cozinha, a outra ouvia música no quarto. O cão, por sua vez, repousava em pose de “guru” no corredor – local estratégico, de onde poderia acompanhar auditivamente a ação de cada menina, em peças opostas.
Foi então que a menina que estava na cozinha ouviu, de longe, as “afetações” do cão-alienígena – que deveria estar prestes a sair para sua ronda noturna. [Entende-se como “afetações” latidos histéricos e agudos]. Como normalmente o cão já estaria a postos na porta ao menor ruído da “pantufa do mal”, ela estranhou a ausência dele naquela noite.
- Deve estar em um sono muito profundo, mesmo! – pensou – Só assim pra ele ignorar aquele etezinho “fiasquento”!
Outro fator, que corroborava a teoria de que o cão possivelmente estaria em outra dimensão, era o fato dele (também) ignorar o cheiro de queijo enquanto ela lanchava.
Cena 2: Guerra-Fria.
Em seguida, as “afetações” aumentam de volume consideravelmente, dando a impressão de que o suporto alienígena estaria estabelecendo algum tipo de contato com a “nave-mãe”. Neste momento, a menina concluiu que o sono do cãozinho não estava tão profundo assim - fazendo com que sua teoria do sono profundo viesse abaixo. Há essa altura, ele já estava andando entre a porta de entrada e a área de serviço, completamente alterado, balbuciando algo que deveria ser um latido reprimido. Também, como seria possível ignorar tamanha histeria?
- Ainda bem que tu não é assim, né Veio?!
O cão, entre suas idas e vindas da área à porta, parava em pose de sentinela e olhava pra menina com olhar de expectativa. Como se dissesse a ela que queria sair para salvar o mundo. A menina, no entanto, começa a se sentir angustiada com a atuação do gremilin de pelúcia.
- Eu gosto de comer com tranqüilidade... será que isso é possível? – repreende o cão, que permanece ansioso e com olhar de expectativa.
- Quando tu tá comendo, eu não fico te atucanando! – completa.
O cão, contudo, parece estar conectado somente em uma sintonia: a pantufa diabólica!
Por fim, a menina desiste de tentar o impossível (fazer seu cãozinho ignorar algo que para ele era impossível ignorar). Respira fundo e opta por fazer uma “pause” no seu lanche. O jeito era esperar o cão-etê passar pela área do condomínio para que a paz fosse restabelecida no lar-doce-lar.
Mais uma vez, o confronto entre as pantufas foi adiado. O cãozinho teria de aguardar uma nova oportunidade para salvar o mundo.












