Meu mundo expresso de várias formas... (my routes, my rules)

terça-feira, fevereiro 12, 2008

A Menina Trabalhadora e a Senhora Dívida


Era uma vez uma menina, simpática e muito trabalhadora, que sonhava em ser artista de cinema. Ainda que nunca tenha abdicado de seus sonhos, trabalhava em um emprego o qual considerava provisório. Sua função consistia em prestar suporte técnico por telefone para os clientes de uma grande empresa, que existe em quase todos os países do mundo. Seis dias por semana, tinha de chegar cedo a um imenso arranha-céu espelhado, repleto de pequenas baias - onde ficavam aglomerados inúmeros trabalhadores anônimos, como ela. Da janela do seu andar, era possível avistar mais de metade da sua cidade, incluindo a rodoviária e o aeroporto. "Parece uma maquete!" – definiu ela, ao contemplar aquela vista pela primeira vez.

Curiosa e questionadora desde a infância, sua função no universo adulto era solucionar problemas alheios. Possivelmente pelo fato de possuir facilidade com a informática ou, por razões ocultas da sinergia do universo, ela acabou sendo lançada no admirável mundo novo dos softwares e dos hardwares. Teve de aprender a se virar neste mundo pouco conhecido, onde os porquês das coisas foram superficialmente explicados durante seu treinamento, com atalhos e Print Screens. Ela achava tudo aquilo muito fraco, queria saber mais, muito mais!

Então, teve de correr atrás de tudo o que considerava esclarecedor ao recém descoberto universo dos microprocessadores. Logo no início, aprendeu que o software é aquele que se pode xingar; ao passo que hardware, é o que se pode bater (embora não seja recomendável). Dedicada e pró-ativa, tratava os clientes da mesma forma que gostaria de ser tratada. Aliás, considerava este princípio fundamental na sua vida, ensinado por sua mãe, que costumava lhe dizer: “não faça aos outros nada daquilo que você não gostaria que te fizessem”. Seu bom-humor e alto astral característico eram capaz de tornar aquela rotina desgastante e cansativa, mais agradável e, por vezes, divertida.

Era apenas mais um dia de trabalho no formigueiro-humano. Até então tudo ia bem, quando a Menina Trabalhadora foi surpreendida pela ligação da gentil Senhora Diva.

A Senhora Diva não estava conseguindo acessar ao serviço prestado por essa grande empresa e pressupôs que a causa fosse técnica. Assim que a simpática cliente confirmou seus dados, a Menina Trabalhadora descobriu a razão de tudo:

A Senhora Diva tinha uma Senhora Dívida.

Digamos que ela possuía "algumas" mensalidades em atraso com a grande multinacional e, por esta razão, seu cadastro havia sido suspenso por inadimplência. Por sinal, o aviso da suspensão aparecia escrito em vermelho, em letras garrafais, bem no meio da página do cadastro da cliente no sistema. Desta forma, não havia como o aviso passar despercebido a Menina Trabalhadora e seus colegas de jornada. Até os mais míopes poderiam enxergar o alerta - sem óculos.

A Menina Trabalhadora tinha de seguir o protocolo-de-atendimento-padronizado-e-impessoal à risca, mesmo que muitas vezes não concordasse com certos procedimentos e achasse desnecessário omitir certas informações. Em caso de inadimplência, ela deveria dizer para a cliente telefonar para o “setor de cadastro” da sua cidade - sem revelar sob hipótese alguma que este, na verdade, era o setor de cobrança. Dizia-se que havia um “problema” nos dados do cadastro, e que somente contatando o já citado setor-fictício, seria possível corrigi-lo.

- Senhora Diva, pelo que pude verificar no seu cadastro, será necessário... blá blá blá...

Ao mesmo tempo em que explicava o procedimento para a Senhora Diva, ela respirava profundamente, de modo que o gigantesco aviso de inadimplência na tela não interferisse no seu discurso padrão. Aquele aviso representava exatamente o que ela era expressamente proibida de revelar. Tudo ia muito bem, obrigada, até que o esperado encerramento com chave-de-ouro daquele atendimento foi por água-baixo, devido a um ato falho da dedicada Menina Trabalhadora.

Ela lutou o quanto pode para ir contra os seus princípios pessoais - tinha de agir conforme os princípios e fundamentos da empresa. Ela só poderia se dar ao luxo de ser ela mesma, quando estivesse do lado de fora daquele imponente arranha-céu espelhado onde trabalhava. Desta vez, a sua natureza acabou falando mais alto do que o estatuto do funcionário. Quando finalizou a explicação para a Senhora Diva, com apenas uma palavra, uma única palavra, a Menina Trabalhadora acabou sendo vítima do seu próprio caráter íntegro. Todo o seu esforço até este momento, que estava tendo o efeito esperado, evaporou... da forma mais sublime que uma evaporação pode acontecer (sem contrariar as leis da física, é claro!).

- A senhora entendeu, Senhora Dívida?
[Silêncio mortal! Iniciou-se um forte vendaval. Nuvens negras e carregadas tomaram conta do céu.]

A Menina trabalhadora se deu conta da gafe um milésimo de segundo depois ter pronunciado a palavra letal. "Pena que no mundo real não dá pra usar CRTL + Z" [desfazer]! – lamentou. Ela fora desmascarada diante da Senhora Dívida, digo, senhora Diva. Di-va! Teria ela achado que a Menina era uma mentirosa?

O fato é que a Senhora Diva calou. Não fez mais nenhuma pergunta quanto às instruções que lhe foram dadas. A Menina Trabalhadora percebeu que a gentil cliente ficara com um nó na garganta ao se despedir. Contudo, não havia o que ela pudesse lhe dizer para desfazer aquele ato falho.

Não se sabe o que houve depois, se a Senhora Diva saldou aquela Senhora Dívida e continuou usando os serviços da dita empresa - que tem em quase todo o lugar do mundo - ou, se optou pela empresa concorrente - que também tem em quase todo o lugar do mundo. A única coisa de que se têm certeza, é de que isso para sempre será um mistério (ahá!). Uma coisa é certa, a Menina Trabalhadora nunca mais esqueceu do dia em que ela chamou a Senhora Dívida de Senhora Diva!
Oops...


[a arte se inspira na vida]
[viver é um constante laboratório]

2 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Não te agüento!
Viu o que é que dá essa mania de ser debochada e essa criatividade essessiva, a mente que não para de pensar maldades e fazer trocadilhos???
Tsc, tsc! Pobrezinha da Senhora Dívida!
Ops...

Proud Mary disse...

Depois dessa, é possível que a Senhora Diva nunca mais tenha contraído dívidas...